Mesmo desaconselhado, cigarro eletrônico conquista fumantes
Ele ainda não é muito popular no país, mas já desperta o interesse. O cigarro eletrônico não é nada mais do que um aparelho com o objetivo de simular um cigarro e o ato de fumar
Ele ainda não é muito popular no país, mas já desperta o interesse de milhares de brasileiros. Também chamado de e-cigarro, e-cig ou e-cigarrette, o cigarro eletrônico não é nada mais do que um aparelho mecânico-eletrônico desenvolvido com o objetivo de simular um cigarro e o ato de fumar.
O dispositivo, criado por fabricantes chineses, libera doses de nicotina e pode ser recarregado de acordo com o gosto do cliente. Por isso, é apresentado pelos fabricantes como método para ajudar o fumante a largar o vício. Diante das leis cada vez mais rígidas em todo o mundo, que restringem o fumo em locais públicos, também surge como alternativa para o fumante satisfazer sua vontade de fumar ou inalar nicotina em ambientes fechados, já que não tem cheiro e por isso não incomoda os não fumantes.
Febre na Europa e nos Estados Unidos desde 2009, o e-cigarro ganha a cada dia mais adeptos, incluindo artistas de Hollywood, além de espaço no cinema. O filme “O Turista”, lançado em DVD em maio, atiçou ainda mais a curiosidade acerca do produto. Nele, o personagem interpretado por Johnny Depp faz uso do e-cigarro dentro de um trem, cena que rendeu ao produto o título de “cigarro do turista”.
Os e-cigs também já foram flagrados nas bocas das atrizes Lindsay Lohan e Katherine Heigl. Charlie Sheen é outro famoso que emprestou a imagem para divulgação do produto. Ele é a cara do cigarro eletrônico NicoSheen. Mas será que o e-cigarro pode ser considerado um medicamento? Ou até que ponto é saudável e quais os efeitos que ele causa no organismo da pessoa? Justamente devido à falta de respostas para essas perguntas, a comercialização e importação do produto são proibidas no Brasil, sendo o uso advertido por especialistas e execrado por diversos órgãos de saúde pública.
Apesar das advertências, é possível encontrar pessoas que fizeram ou fazem uso dos e-cigs em Niterói. As opiniões variam de acordo com a finalidade que cada uma dá ao produto. Para quem o utiliza como alternativa para suprir a vontade de fumar, especialmente em lugares fechados, o produto é bem aceito. Já para quem o usa com a finalidade de parar de fumar, promessa dos fabricantes, o relato é de decepção.
O fotógrafo e músico Bruno Sgarbi, 30 anos, fumante há 15, comprou seu primeiro e-cig há cerca de um ano e de lá para cá não parou de experimentar outras marcas e modelos do produto, que custaram de US$ 10 a US$ 200. Ele conta que encontrou o produto por acaso, enquanto navegava pela internet e adquiriu através de sua mãe, quando ela fazia uma viagem aos EUA.
Bruno revela que seu objetivo não é parar de fumar com os e-cigs, mas utilizá-los em ambientes fechados sem incomodar ninguém.
“Com ele, posso satisfazer minha necessidade de fumar sem incomodar ninguém, principalmente dentro de casa, ainda mais agora que tive um filho”, salienta.
Ciente dos estudos que apontaram a presença de componentes químicos tóxicos nos cigarros eletrônicos, Bruno argumenta:
“O cigarro comum possui mais de 4.700 substâncias tóxicas. Se o eletrônico possui duas ou três substâncias tóxicas, qual é o problema? Além disso, é um negócio, até que se prove o contrário, que você usa e se mata sozinho”, observa.
Para o músico, a liberação do e-cig nada mais é do que uma questão político-econômica.
“Tudo bem que não se sabe muita coisa sobre os efeitos do cigarro eletrônico, mas se sabe tanta coisa a respeito do cigarro à base de tabaco e mesmo assim ele é liberado. Acredito que a liberação do e-cigarro traria um impacto para as grandes do tabaco, prejudicando o famoso lobby dessa indústria”, conjectura.
Mas, para quem pensa que substituir o cigarro pelo e-cigarro instantaneamente é tarefa fácil, engana-se.
“É outra coisa. Você precisa se adaptar, pois são várias as diferenças e o gosto também varia. Além disso, o cigarro (comum) satisfaz mais rápido e acaba. O eletrônico não, você precisa tragar mais para se satisfazer e depois não joga fora, guarda no bolso”, comenta Bruno, transparecendo aí mais uma vantagem do dispositivo: o benefício ecológico, já que uma guimba de cigarro leva de um a dois anos para se decompor na natureza.
Trocar um produto pelo outro, no entanto, é a pretensão do também músico e fotógrafo Leonardo Dias, 26 anos, fumante há 13, e usuário do e-cig há cerca de um ano. Ele, aliás, foi apresentado à novidade pelo amigo Bruno.
“Geralmente, quando saio para beber ainda uso o cigarro comum, mas o meu ideal é parar totalmente de usá-lo, substituindo-o pelo eletrônico. Além de mais barato, meu quarto e roupas ficam fedendo menos a cigarro”, conta.
E a economia pode ser outra vantagem da novidade. Enquanto o “maço eletrônico” mais barato custa US$ 10 e seu refil (fluído com nicotina) de US$ 15 a US$ 20 e dura meses, o comum custa de R$ 4 a R$ 12, e dependendo da pessoa, não chega a durar um dia.
Contradições quanto ao uso
Ao contrário do que divulgam os fabricantes dos e-cigarros, que dizem que as baforadas liberam apenas vapor d’água, análises do governo dos EUA das duas marcas mais vendidas naquele país apontaram a presença de diversos componentes químicos tóxicos, como nitrosamina e dietilenoglicol na fumaça artificial.
De acordo com a FDA – agência norte-americana que regula medicamentos e alimentos –, responsável pelo estudo realizado em 2009, essas substâncias podem causar câncer e, portanto, podem, sim, fazer mal à saúde.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) se diz contra o dispositivo e já orientou os países signatários a proibir a venda. Nos EUA, porém, a venda dos e-cigs é liberada, exceto em alguns estados. Outros países dividem opiniões acerca deles.
Pneumologista do Instituto Nacional do Câncer (Inca), o médico Ricardo Meirelles é taxativo ao dizer que o produto não é recomendado e lembra o estudo americano.
“Até agora, o que se sabe é devido ao estudo da FBA. Por isso, até que se tenha um estudo científico que comprove ou não a eficácia desse produto como novo método para se parar de fumar,”, reitera.
A presidente da Comissão de Tabagismo da Sociedade de Pneumologia e Tisiologia do Estado do Rio de Janeiro (Sopterj), Alessandra da Costa, concorda.
“Nos últimos consensos mundiais para o tratamento do tabagismo, incluindo os consensos brasileiros, o cigarro eletrônico não foi incluído como método efetivo para a cessação do tabagismo”, frisa a médica.
“Os únicos métodos comprovados na cessação do tabagismo consistem no uso de medicamentos como a bupropiona, a vareniclina e a utilização de nicotina sob a forma de adesivo, pastilha, chiclete e spray, associados à terapia cognitivo-comportamental, fundamental para a mudança de comportamento que a interrupção de qualquer droga exige. Esse tipo de cigarro (eletrônico), além de não ser seguro como os fabricantes afirmam, mantém o ‘gestual’ do fumo. Sem mudança comportamental, dificilmente se alcança a abstinência”, completa.
Comercialização é vetada pela Anvisa
A comercialização e importação do produto no Brasil foram oficialmente vetadas em 2009 através de resolução publicada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Diário Oficial da União (DOU). Além de proibir a entrada no país de qualquer dispositivo eletrônico de fumar, a RDC 46 se estende aos acessórios e refis destinados ao uso desses dispositivos, assim como a propaganda, a publicidade e a promoção, inclusive na internet, dos mesmos.
De acordo com a Anvisa, a medida é válida para todo o território nacional e levou em consideração a falta de comprovação científica quanto à eficácia e à segurança do produto, baseando-se, portanto, no princípio da precaução.
A resolução, no entanto, não descarta a possibilidade de regularização do produto, desde que a empresa fabricante apresente estudos toxicológicos e testes científicos específicos, comprovando as finalidades alegadas.
Apesar da resolução vigente, contudo, os e-cigarros são facilmente encontrados para venda na internet. Numa breve pesquisa pelo buscador Google, é possível verificar uma infinidade de páginas brasileiras e internacionais destinadas à sua comercialização. Só no site de relacionamento Orkut são vários os perfis de usuários destinados à venda do produto. Neste também é possível encontrar pelo menos 10 comunidades relacionadas ao tema, uma delas com cerca de 700 integrantes.
O que diz a Lei:
Para o jurista Jorge Loretti, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em Niterói, a lei deve ser interpretada à vista do caso concreto, sendo assim, a aplicação ou não das sanções punitivas previstas no texto proibitivo específico, nesses casos, fica a cargo dos tribunais e da hermenêutica.
“A lei visa preservar a coletividade, os efeitos que o produto pode causar, já que não há estudos específicos. Portanto, ao usar esse tipo de dispositivo dentro de um ambiente fechado, por exemplo, a pessoa pode até ser punida, mas ao mesmo tempo pode alegar que ele não possui os mesmos efeitos do cigarro comum e por isso a aplicação da lei não é válida. Ou seja, para aplicar os efeitos legais que restringe o uso do cigarro tradicional, é preciso que o eletrônico tenha os mesmos efeitos nocivos. A conclusão será do juiz a partir de perícia e análises técnicas”, explica o advogado.
fonte: http://jornal.ofluminense.com.br/editorias/o-flu-revista/faz-bem-ou-faz-mal